
Não é zoófilo, nem pedófilo, nem necrófilo – isso é o que importa (Foto: Thiago Bulhões)
Aquele era um dia difícil no céu, para os anjos da Fodasse (Fundação de Orientação Domesticatória a Assexuados e Sexuados Safados em Excesso). Um jovem estudante universitário, de mais ou menos 20 anos, chocava mais uma vez a sociedade terrena ao colocar em dúvida a própria sexualidade.
Com aquele garoto, a situação era pedreira: desde muito novo, o pai questionava se ele, quando crescesse, gostaria de meninos ou de meninas (intimamente, acreditava que seria de meninos, mas para não profetizar, deixava o assunto baixo). Depois de crescido – e bem crescido – a orientação sexual do rapaz tornou-se loteria para os especuladores de plantão. Como era um jovem idealista, achava que poderia muito bem quebrar tabus e barreiras no cotidiano, fazendo o que bem entendesse com a própria postura. Mal sabia o estudante que, a cada situação insólita em que se metia, os anjos do Fodasse recebiam um memorando pouco simpático do chefe, Deus.
Depois de crescido – e bem crescido – a orientação sexual do rapaz tornou-se loteria para os especuladores de plantão
Mas, dessa vez, não houve acordo: a situação era tão grave que Ele foi obrigado a convocar uma reunião, para cobrar providências a respeito do comportamento condenável do garoto. O encontro foi marcado para o mesmo dia e já começou com gritos exaltados da chefia, revoltada:
- Pelo amor de Mim Mesmo, algum de vocês pode me explicar o que esse sujeito tem na cabeça? Não basta cultivar uma dúvida que nem nós mesmos conseguimos responder, agora ele precisa esfregar na cara de todos algo que ninguém sabe se é verdade?
Claudius, o anjo porta-voz do grupo, resolveu se manifestar:
- Senhor, ouça-me, por misericórdia. Ele é um menino extremamente inteligente, competente e bonito. Embora muita gente não acredite, é bom também, muito bom. Seria realmente relevante continuar investigando a sexualidade dele?
- Claudius, meu anjo, eu só quero saber o que de fato essa ovelha é, para poder, enfim, situar o caminho desse rapaz. Quando o criei, confesso que não me preocupei de imediato em definir se ele seria menino ou menina, deixei isso para depois. Mas também não previa que ele me causaria todo esse bafafá na Terra. Mexer com fotografia é um pouco demais!
- Senhor, a foto nem é tão chocante. Além do mais, foi tirada entre amigos, sem nenhuma maldade. Tudo bem que eles estão ali, um pouco próximos demais, mas é arte, apenas. Nós aqui, do Fodasse, sabíamos da foto e aprovamos a atitude. A maldade está nos olhos de quem vê, Senhor.
- Está dizendo que eu sou maldoso, anjo Claudius? – disse Deus, com olhos temíveis, causando um burburinho espinhoso entre os outros anjos
- Silêncio, cambada! Claudius, eu acredito em tudo isso que você fala, de verdade. Embora esse tipo de arte seja avançado demais para o meu gosto, estou digerindo. O que me preocupa é essa indefinição que ele insiste em preservar.
- Ora, Senhor, até parece que não conhece a própria cria? Até onde me lembro, Tu criavas as pessoas sem vincular características pessoais à orientação sexual. Com esse rapaz não foi diferente, foi?
- Não Claudius, não foi. Na verdade, ele foi um teste. Quis tentar fazê-lo um pouco fora do padrão. Mas confesso que não pensava na hipótese de que ele seria constantemente bombardeado por hipóteses e mais hipóteses sobre o que ele gosta de fazer na hora do sexo… - novo burburinho.
- Onde já se viu o Senhor pronunciando a palavra “sexo” com tanta clareza e despudor?
- Calem-se, anjos puritanos! Incomodou vossos ouvidos ouvir a fonética de “sexo”? Pois repito: sexo, sexo, sexo! Como dizia, Claudius, sinto medo de que isso se torne uma carga pesada demais para esse meu filho. Será possível que Eu, convivendo com a perfeição diariamente, fui capaz de deixar essa ovelha passar com um defeito de fábrica?
Claudius, então, aproximou-se do Chefe e disse, baixinho:
- Olha, Senhor, sem querer ser pessimista ou duvidar de Sua divina capacidade, mas eu acho sinceramente que o defeito de fábrica está é em toda a sociedade. Nesse cansativo hábito que os terrenos têm de querer entender tudo – até aquilo que não os diz respeito, ou que não precisa ser entendido.
Deus respirou fundo, olhou para os anjos com cara de quem está prestes a começar uma mudança drástica, levantou-se e decretou o fim da sessão – convencido de que trabalhar naquela questão era inútil. O garoto não mudaria, a sociedade talvez. E era nesse talvez que Ele começaria a agir. Mas só depois do chá das 17h, com o pessoal do Inferno (Instituto de Novinhas Ferradas e Excluídas Realmente Nunca Observadas).
Obs.: segundo anjo Claudius, consta no prontuário de criação do Jovem Garoto Rapaz Estudante, no campo “orientação sexual”, a explicação de que “não é zoófilo, nem pedófilo, nem necrófilo – isso é o que importa”.