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Crônicas do JMP abusam dos temas deprimentes

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Na última edição do Jornal Matéria Prima, o número de crônicas ultrapassou a quantidade de textos informativos. Tal enxurrada de “textos literários” no JMP pode ser explicada com uma informação de bastidor: o número de textos entregues pelos alunos para compor a edição foi tão baixo que foram solicitadas crônicas de última hora, cuja função era preencher os espaços deixados em branco e entregar ao leitor uma edição menos vazia do jornal-laboratório. Porém, o intrigante foi a linha de conteúdo que três dos quatro autores transformaram em regra na edição: seguir o dramalhão.

A crônica oficial da edição é a exceção que confirma a regra

Na crônica oficial da edição, “O que pode ser pior que toalha molhada”, a autora trouxe a exceção que confirma a regra, construindo uma bem-humorada análise de quais são as atitudes masculinas que mais incomodam o sexo feminino – tema conveniente com o período, considerando que até a nova novela das sete aborda o assunto. Já as outras três crônicas transformaram o JMP em um divã, onde os autores se sentaram e expuseram dilemas dignos de consultório.

O autor sugere uma “deliciosa” descoberta, que não passa de uma agonia

Em “A deliciosa descoberta de uma paixão”, o autor apresentou, em um enredo recheado de detalhes, como “o brilho dos olhos, a pupila dilatada, o sorriso bobo e as frases mal elaboradas”, um clichê utilizado à exaustão em obras literárias de gosto duvidoso. A contradição apresentada no texto fica por conta do título, que sugere uma “deliciosa” descoberta, mas que não passa de uma agonia à qual o personagem principal submete-se do início ao fim do texto.

A próxima crônica, “Os primeiros passos para uma vida adulta”, mostra um cenário extremamente criticado nos moldes da sociedade em que vivemos: a do jovem que tem síndrome de Peter Pan. Na história, a garota rejeita uma oportunidade ímpar de emprego, por ter se estressado durante a entrevista. Para arrematar o “festival de imaturidade”, o texto é finalizado com a afirmação de que a personagem não nasceu para ser adulta, sugerindo que aquela situação irá se perpetuar por algum tempo.

A autora assume um papel de conselheira, incentivando o leitor a algo impraticável

A última crônica da edição, “Como conquistar a verdadeira felicidade”, já começa com cara de texto instrucional. Tal impressão desaparece logo no primeiro parágrafo, quando a autora assume um papel de conselheira, incentivando o leitor a transformar lembranças em filosofia de vida, algo, de certa forma, impraticável. A conclusão que se tem ao término do texto, encerrado com um objetivo “seja feliz”, é de que a autora construiu mais um, entre tantos, texto de auto-ajuda sem qualquer relevância.

Estranha-se tamanha falta de assunto e criatividade justo na editoria que permite o voo da imaginação. Apropriando-se do senso comum, muito utilizado na escolha dos temas para as crônicas, escrever essa modalidade textual é criar situações que sejam encaixáveis no cotidiano. Se esses problemáticos temas fazem parte do cotidiano dos nossos autores, recomenda-se que cada um procure um psicólogo, psicanalista ou até mesmo um ombro amigo. O leitor do JMP quer ser entretido. E não o contrário.

O MP é um jornal-laboratório, não um psicólogo de plantão (Foto: Reprodução/Wallbase)


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