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“Avenida Brasil” e a sociedade que mente

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Era uma vez uma menina que perde a mãe na infância e ganha do pai uma madrasta, mulher má que inferniza a vida da enteada, destruindo a vida dela e levando-a para um lugar sujo e triste. Então, uma fada-madrinha tira a menina das garras da madrasta e a manda para longe, a fim de construir uma vida distante de todo aquele sofrimento. Esse enredo caberia muito bem em qualquer conto de fadas, não fosse a continuação dele: depois de adulta, a menina volta à vida da madrasta para se vingar de todo o mal feito no passado.

O confronto da cozinheira Nina contra a madrasta Carminha tem provocado verdadeira mobilização popular

Essa é a história de “Avenida Brasil”, novela que têm batido sucessivos recordes de audiência no horário nobre da Rede Globo. O confronto da cozinheira Nina contra a madrasta Carminha tem provocado verdadeira mobilização popular, que além de manter o Ibope alto (média de 40 pontos por capítulo), transformou as mídias sociais em mesa redonda de debate do comportamento de Nina. Enquanto uns defendem a personagem, se colocando no lugar dela, outros veneram a dissimulação e sarcasmo da vilã Carminha, que há anos engana o marido Tufão e toda a família dele, mantém o amante sob o mesmo teto, profere ofensas contra a filha obesa, para não citar outras maldades.

Seria o debate ético levantado pela novela o responsável por tamanho sucesso? Talvez. O fato é que os personagens de “Avenida Brasil” possuem comportamentos ambíguos. Dentro da história, ninguém é inteiramente bom ou ruim, mas são “sobreviventes”, como disse o próprio autor à revista “Contigo!” no lançamento da novela. A protagonista Nina já cometeu uma série de atrocidades em nome da vingança: jurou em falso ao pai adotivo no leito de morte dele, abriu mão do grande amor de infância e provocou uma crise conjugal no casamento da melhor amiga. Com todos esses agravantes, o público passou a questionar Nina e se questionar, espelhando na personagem a reação que teria caso estivesse no lugar da cozinheira.

A jornalista Patrícia Kogut destacou na coluna que assina no jornal “O Globo”, no dia 30 de maio de 2012, que ninguém na novela é o que parece ser. Após a data, muita coisa aconteceu na história. Nina já está se vingando de Carminha que, pressionada, tem soltado podres do passado de todos os personagens do seu redor. O público já sabe, por exemplo, que a catadora Lucinda, fada-madrinha de Nina, não é exatamente uma fada: ela já cometeu um assassinato no passado, matando a mulher do homem que era amante.

“Avenida Brasil” está entrando na reta final, com uma trama que continua a surpreender os telespectadores. Sabe-se que em breve Carminha virará o jogo contra a enteada, fazendo-a comer o pão que o Diabo amassou novamente. Caberá ao público analisar de que lado vai ficar. E o autor, aos poucos, vai passando o seu recado: nunca acredite piamente em ninguém. Muito menos nos moradores da Avenida Brasil.

Fotos: Avenida Brasil/TV Globo


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