Coleções chamam atenção
pela esquisitice
Quatro colecionadores explicam o prazer de reunir objetos que fogem do que é costumeiramente colecionado
THIAGO BULHÕES
Aluno de jornalismo
Quem nunca colecionou ou conheceu alguém que colecionasse figurinhas, latas de refrigerantes, selos ou qualquer outro objeto que seja tipicamente colecionável? A prática da coleção é antiga. Tão antiga, que não existem registros oficiais de quando surgiram as primeiras coleções. A hipótese mais aceita é de que foram os homens pré-históricos que começaram a reunir objetos, com a intenção de utilizá-los novamente, em outras ocasiões. Tradicionalismos à parte, o conceito de coleção não se restringe apenas a objetos voltados a essa prática. Qualquer reunião de itens em comum configura-se coleção, independentemente de serem bizarros ou não.
Para a psicóloga Carla Devides Fabri, as coleções, especialmente as que são mais exóticas, têm ligação com a personalidade. “O colecionador constroi ideias e conceitos sobre si mesmo baseado na sua coleção.” Carla ainda explica que “os motivos para colecionar são projeções da personalidade”, fazendo com que a coleção torne-se um espelho para o colecionador.
Fico feliz por ter a honra de dar outro significado à morte dos bichinhos.
Primando pelo exotismo, a ilustradora Caroline Jamhour, 26, coleciona ossos e chifres de animais (há dois anos), penas de aves (há 10 anos), borboletas e mariposas. Caroline não tem controle específico sobre a coleção. As únicas peças que têm quantidade contada são os crânios (dois de coiote e um de guaxinim), uma bacia e algumas vértebras de veado, importados do Texas. A ilustradora faz questão de destacar que os ossos são provenientes de animais que morreram naturalmente, pois não gosta “de nada que provenha de caça ou coisa assim”. A colecionadora ainda tem animais “naturalmente mumificados”: um beija-flor e dois filhotes de pássaros. Perguntada sobre o valor da coleção para a vida, Caroline diz: “eu gosto muito de animais e guardar essas coisinhas que a morte deles deixa para trás me faz sentir próxima deles. Fico feliz por ter a honra de dar outro significado à morte dos bichinhos”.
Assim como Caroline, a estudante Bárbara Cazula, 18, também se envolveu com objetos exóticos. Desde 2009, junta sachês de sal, açúcar e adoçante, que recolhe por onde passa. A coleção começou com uma função econômica: Bárbara pretendia guardar os saquinhos para um dia usá-los. “Depois, a coleção foi aumentando e me deu dó de jogar fora.” Desde então, já são 67 sachês no acervo, vindos até do Uruguai, e que, segundo a estudante, tornaram-se uma espécie de registro da vida dela. “Servindo como uma recordação de cada lugar diferente que já fui.”
Já gastei muito [com relógios]. Hoje as coisas estão mais difíceis, não dá para sair gastando.
Economias a parte, a paixão do empresário Franco Luis Vitor Vasconcelos, 37, não pode ser encontrada em parques ou lanchonetes. Desde os 12 anos, ele coleciona relógios, e já reúne cerca de 250 itens, que ficam organizadamente guardados em caixas protetoras. “Meu primeiro relógio consegui aos 12 anos [modelo Aqua AQ-91W], e de lá para cá, não parei mais.” O empresário, além de ter relógios de pulso tradicionais e alguns exemplares dos clássicos relógios de bolso, faz questão de adquirir edições comemorativas, como as lançadas em homenagem aos 40, 50 e, recentemente 60 anos da Esquadrilha da Fumaça. Vasconcelos admite que já gastou muito com relógios, mas pisou no freio pois “hoje as coisas estão mais difíceis, não dá para sair gastando”.
A reportagem propôs uma “brincadeira” à psicóloga Carla Devides Fabri. Com base em características das coleções, ela fez comentários sobre a personalidade dos indivíduos. “Daria para fazer várias análises psicológicas em cima desses colecionadores, mas preferi não me aprofundar”, ressalta Carla Fabri, sobre a superficialidade dos dados fornecidos.
Caroline, 26 anos. Coleciona penas e ossos de animais. Também tem um beija-flor “naturalmente mumificado” e chifres, alguns importados do Texas. Ela faz questão de manipular os corpos e frisa que pega apenas bichos que tenham tido morte natural. Diz conseguir dar “um novo significado à morte dos animais”. Carla:Analisando psicologicamente essa coleção, pode-se dizer que a colecionadora busca o poder e o controle das peças colecionadas, o que pode trazer-lhe satisfação e prestígio, e como ela diz ”um novo significado a morte dos animais”.
Bárbara, 18 anos. Coleciona sachês de sal, açúcar e adoçante, daqueles, com porção individual para uma refeição, ou café etc. São 67 unidades, que a estudante diz que contam a vida dela. “Cada um dos saquinhos foi conseguido em um momento especial, e eu sinto a mesma emoção que senti no dia que os consegui cada vez que os vejo.”
Carla: Nesse caso, a colecionadora adquire e retém objetos do passado para relembrar os momentos agradáveis pelos quais passou. O sentimento nostálgico relativo ao objeto colecionado permite a colecionadora reconstruir e reviver o seu passado.
Franco, 37 anos. Coleciona relógios desde os 12. Tem mais de 200 relógios na coleção, e já chegou gastar muito em um único exemplar. Importa relógios que não têm no Brasil, e adquire edições comemorativas. Hoje, diz que não comete mais tantas excentricidades ao comprar os relógios, afinal “os tempos estão difíceis”.
Carla: A coleção oferece a esse colecionador a oportunidade de maior controle sobre esse pequeno mundo, em contraste com o real. Isto é, o comportamento do colecionador está baseado na necessidade emocional de sempre se reabastecer, por isso ele chegou a investir alto em um relógio.
Maria Carollina, 17 anos. Tem cerca de 500 embalagens de presente, na maioria caixas. Guarda-as, pois a partir das embalagens consegue remeter o passado. Admite que coleciona porque acha bonita, e não tem grande compromisso em aumentar a coleção.
Carla: Dos colecionadores entrevistados, essa parece ser a única que acontece de forma não proposital, isto é, escolheu os objetos colecionados pelo design, atraída mais pela beleza. Tanto que não sente tanta vontade de administrar a coleção. |
Guardei tudo, pois as embalagens eram mais bonitas que os presentes.
Diferentemente de Vasconcelos, a estudante Maria Carollina Xavier, 17, não dirige nenhum investimento financeiro à coleção de embalagens de presente que mantém desde 2009. A predileção começou após o aniversário de 15 anos da estudante. “Ganhei vários [presentes], e guardei tudo, pois as embalagens eram mais bonitas que os presentes”, diz. Maria nunca contou a coleção, mas garante que o número gira em torno de 300 a 500 embalagens, e são, na maioria, caixas. Perguntada sobre o xodó da coleção, ela é categórica: “é uma caixa simples, verde, que meus amigos personalizaram, rabiscaram bem do jeito que eu gosto. Essa eu guardo até separada, no meu quarto”.
A psicológa Carla Fabri ressalta que grande parte do encanto de colecionar está em construir o acervo. “Vale dizer que adquirir o produto é mais relevante do que ter esse produto”, diz. Aos colecionadores, só resta desejar boa sorte, e um futuro próspero às coleções deles.
Cultura popular permanece romantizada
Movida pela paixão, colecionadores de selos, cartões e carros antigos podem documentar as coleções para a história
CELSO DUTRA
Aluno de jornalismo
São muitos objetos que podem ser colecionados, que vão de selos, cartões telefônicos, cédulas, carros antigos etc. A natureza de colecionar algo é mania humana e está diretamente movida pela paixão. Vai além de valores sentimentais e econômicos.
Meu patrão trazia selos dos Estados Unidos, Itália e outros países.
Forma de comunicação antiga, as cartas postais enviadas pelo correio foram substituídas, em grande parte, pelo e-mail. Colecionadora desde 1985, Luiza Damasceno, 57 anos, aposentada, conseguiu juntar aproximadamente 900 selos. Ela recebia muitas correspondências de amigos e familiares. Aquecendo as cartas no vapor, conseguia tirar os selos intactos e começou a guarda-los. O que chama a atenção são os selos coloridos e com estampas, que vão desde frutas, cereais, temas natalinos e até cultura brasileira. São os mais variados tipos que ela conseguiu guardar, os nacionais e também os internacionais. “Meu patrão viajava muito para o exterior e ele trazia selos dos Estados Unidos, Itália e outros países”, diz.
Para Laurindo Cordiolli, 75 anos, empresário, colecionador de carros antigos, o valor econômico da coleção não importa, mas como trabalha com transportes, o acervo tem valor sentimental.
O primeiro carro da coleção foi um Jipe, 1961. É o modelo pelo qual Cordiolli tem mais afeto. O mais antigo da coleção é um Ford T (caminhonete), de 1919. Com o passar do tempo foram adquiridos outros carros, que se juntaram aos que ele já tinha. “Sempre participamos de eventos sociais, como casamentos, formaturas e em exposições de colecionadores de carros antigos. Apresentamos nos desfiles do dia 10 de maio, [aniversário de Maringá], e 7 de setembro [independência do Brasil]”, diz.
É possível contar uma história de vida por meio dos objetos.
Segundo Elias Gomes de Paula, 43 anos, historiador, as coleções podem ser documentadas mesmo que o colecionador saiba que documentos não são só os oficiais, e também selos ou cartões que retratam a história do País. Segundo ele, desejo de colecionar algo parte da vista do colecionador. “É possível contar uma história de vida por meio dos objetos, sejam selos, moedas, cartas. O tempo passa e a tendência é romantizar o passado. Aquilo que ocorreu foi melhor do que é hoje e é uma relação afetiva com o objeto.”